Rir por tudo e por nada Deixe as lamúrias de lado. Por momentos, esqueça as contas para pagar. Dê descanso ao relógio. Desligue o telemóvel. Feche a porta ao mundo. Respire fundo. Abra os braços. Ria. Até não poder mais.
“Um dia sem rir é um dia desperdiçado”. A frase é de Charles Chaplin e levou-nos a uma sessão de risoterapia.
O ponto de encontro habitual é o Najmah, o Centro de Reencontro Natural, em Leça da Palmeira. Contudo, o bom tempo fez com que cerca de 30 pessoas participassem, no passado sábado, na sessão de risoterapia ao ar livre, em plena praceta Hintze Ribeiro.
Alguns dos moradores espreitam, desconfiados, à janela. Quem por ali passa, abranda o passo para tentar descobrir qual a razão de tanto alarido. Reunião de colegas? Casamento? Um almoço animado? Nada disso. Um grupo de pessoas ri, indiferente a quem observa.
Lucília Santos é a terapeuta que conduz a sessão de cerca de 40 minutos. Os participantes, de todas as idades, formam uma roda. Gesticulam, exercitam partes do corpo que há muito se perderam no ritmo frenético e repetitivo do dia-a-dia, batem palmas, saltam, levantam os braços e riem. Todavia, não é um riso qualquer. É um riso provocado, mas para o cérebro não importa de onde vem: pode ser uma anedota muito engraçada ou uma situação hilariante na rua, porque, no fundo, a reacção do cérebro é a mesma.
“É a junção do riso com o yoga. Além do riso, temos os exercícios respiratórios. Quando nos rimos, a oxigenação que fazemos acaba por ser acelerada. É um processo acelerado tal como a ginástica. Há pausas em que batemos palmas e fazemos respirações profundas para acalmar o sistema. É um trabalho dual entre o yoga e o riso. Acaba por ser uma terapia bastante abrangente. Embora a oxigenação se faça, haja imensas hormonas que circulem, o processo é gradual. A pessoa sai na mesma relaxada da risoterapia e, ao mesmo tempo, bem-disposta. O benefício continua, isto é, no dia a seguir as pessoas ainda estão a sofrer os efeitos. As endorfinas são libertadas. O cérebro não reconhece o riso forçado. O nosso cérebro faz as mesmas endorfinas que fazia num riso normal. No outro dia, elas ainda estão lá e vai sentir na mesma vontade de rir. Na Índia as pessoas fazem estas sessões diariamente”, explica Lucília Santos.
O que é a risoterapiaA risoterapia, ou o Yoga do Riso, surgiu na Índia. O médico Madan Kataria e sua esposa Madhuri, professora de yoga, “testaram” os seus efeitos benéficos num grupo de amigos e, mais tarde, organizaram, em Março de 1995, a primeira sessão pública, num parque público em Andheri, Mumbai. A risoterapia espalhou-se por todo o mundo. Estima-se que, actualmente, são cerca de nove mil os clubes do riso dispersos por cerca de 40 países. Em Portugal, são vários os clubes do riso, entre os quais o de Leça da Palmeira, situado no “Najmah”.
“Nos congressos, estamos sempre em contacto com novas experiências. Em Lisboa, assisti a uma destas sessões de risoterapia e foi extremamente agradável. Foi uma sensação muito boa. Tentei informar-me mais sobre os clubes do riso e depois fiz as sessões. E a partir daí, fiz o curso”, conta Lucília Santos.
Diferente é a história da também terapeuta Constanza Ramos. Um dia, há muitos anos, esta venezuelana viu um documentário na televisão da “National Geographic” sobre o yoga do riso. Dado que estava já ligada a outras técnicas orientais, decidiu acrescentar a risoterapia ao leque de ofertas do “Najmah”- o Centro de Reencontro Natural.
Resultado? “Há aquela ideia que isto é ridículo, que não se está a fazer bem, quando há condicionantes é lógico que a sensação não é tão profunda. As crianças riem por tudo e por nada. Temos muitos medos e, muitas vezes, inconscientes. O que é que os outros vão pensar? Mas depois de ultrapassar, aí sim, a pessoa começa a ter ela própria consciência e depois já nem liga! Podia estar o Papa à janela! Está-se a divertir com a vida. No fundo, o yoga do riso é um brincar com a vida. É vir uma conta difícil para pagar e rir. Chorar não adianta nada. Rir solta energia”, afirma Constanza Ramos.
Desde que colabora com o Clube do Riso de Leça da Palmeira, Lucília Santos realça a crescente adesão das pessoas a este tipo de sessão: “a abertura tem sido fantástica. Para muitas das pessoas que vieram hoje foi a primeira experiência, mas para as outras que já tinham feito, reagiram muito melhor, com mais facilidade. No início, como todo o riso provocado, causa espanto e embaraço. À medida que as pessoas vão trabalhando essas amarras, vão descaindo, vão-se ajustando à risoterapia. Quem vem cá, traz sempre mais alguém. A mensagem vai passando”.
Para a professora Maria Cândida, esta foi a sua primeira experiência. Soube da sessão da risoterapia através da comunicação social e decidiu participar: “achei óptimo. Na próxima sessão estou cá. Senti-me muito bem. Não senti nenhum constrangimento. Aceitei muito bem toda esta terapia. Infelizmente, há cada menos motivos para as pessoas se rirem. Eu sou uma pessoa que, mesmo assim, se levanta cedo de manhã com vontade de rir. Sou optimista, mas a vida não é sempre assim”.
Também para o professor Bento Lima, esta foi uma experiência inédita que pretende repetir: “vi ontem num jornal. Desconhecia isto. Despertou a minha curiosidade. Acho que temos necessidade de rir. O Clube do Riso...gostei do título. Achei sugestivo! Apesar de tudo, acho que há motivos para rir. Uma bela paisagem, o riso de uma criança...tantas coisas bonitas. Ainda vale a pena viver. Gostei. Para mim, foi surpreendente. Não estava à espera disto. Foi muito positivo. Até me sinto mais liberto, mais descongestionado, mais leve. É como se desse um piparote e esvoaçava!”.
“Vim aqui encontrar pessoas conhecidas que já não via há muito tempo. Acho que esta terapia faz com que uma pessoa sem querer se toque, conviva, é muito agradável”, conta Maria Cândida. Aliás, alguém escreveu um dia que “O riso é a distância mais curta entre duas pessoas”. Também para Bento Lima, o riso ultrapassa barreiras: “tudo isto é contagiante. Recomendo a toda a gente. Senti algum constrangimento no início, porque também sou uma pessoa tímida, mas depois libertei-me e nem liguei a quem estava a ver da janela. Foi óptimo”.
Tempo para rirHá um provérbio chinês que diz “O tempo que passas a rir é tempo que passas com os deuses”. No entanto, a falta de tempo é cada vez mais um problema das sociedades modernas.
Na opinião de Lucília Santos, “hoje em dia, as pessoas não têm tempo para respirar, bocejar, espreguiçar nem para rir. O que acontece é que há muito bloqueio que precisa de ser libertado. Nestas sessões de riso consegue-se analisar a necessidade que as pessoas têm de rir, de respirar fundo, de suspirar, de fazer aquilo que é normal para nós sobrevivermos”.
Para Constanza Ramos, o chamado “discurso do coitadinho” é coisa que não resulta. Rir é sempre o melhor remédio, mesmo nas piores situações: “é uma técnica fantástica. Nós devemos rir de tudo na vida. Normalmente quando temos um problema choramos ou ficamos depressivos. Se nós rirmos, resolvemos as coisas de uma outra forma. Sentimos um bem-estar. Toca a rir! Rir de tudo, rir dos problemas, rir dos imprevistos. Rio e danço todos os dias. Quando as pessoas se libertam, quando se entregam ao que estão a fazer, mexe o corpo todo. Há uma vibração energética no corpo todo. Nós somos energia. Isso movimenta todo o nosso corpo. É uma técnica ancestral. Nós aqui é que não estamos habituados. Somos muito sisudos. Os europeus são muito sisudos”.
Também para Lucília Santos, o estado de espírito influencia o nosso corpo: “o estado emocional é o remédio. Todas as doenças vão variando consoante o nosso estado emocional. Se conseguir rir, o bem-estar vem a seguir”.
Rir faz bem à saúde. Sempre poupa em medicamentos e faz novos amigos. Alguém disse um dia: “Eu chorava por não ter sapatos até que um dia encontrei um homem que não tinha pés”. Dá vontade de rir, não dá?
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